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CHÁ DE ARTEMISA E ARTESUNATO: FATOS E FAKES

Profa. Dra. Michelle Frazão Muzitano


A artemisia (Artemisia annua L.) é uma planta medicinal utilizada na Medicina Tradicional Chinesa contra febres e malária, encontrada em registros antigos que datam de 168 aC, com o nome popular de Qing Hao. A pesquisadora chinesa Youyou Tu e sua equipe se dedicaram ao estudo da Artemisia annua e seu potencial efeito contra a malária. Os estudos foram conduzidos em etapas in vitro e em 1972 foi comprovada através de ensaio clínico a eficácia da porção neutra do extrato em éter etílico de A. annua no tratamento da malária [1].

Nos anos seguintes foram realizados estudos para isolamento e caracterização do princípio ativo de Artemisia annua e em 1977 esta etapa foi concluída com a divulgação da artemisinina e sua estrutura tridimensional, e indexação no Chemical Abstract. Posteriormente foram conduzidos estudos com derivados da artemisinina e sua relação estrutura-atividade visando o tratamento da malária. A atenção da comunidade científica se voltou para a artemisinina e seus derivados, devido a sua estrutura química única e sua alta eficácia no tratamento da malária, e devido ao aumento nos casos de malária resistente aos derivados quinolínicos. Atualmente, as terapias combinadas à base de artemisinina são recomendados pela OMS para o tratamento das infecções letais por P. falciparum e estão sendo usados ​​em todo o mundo [1]. Por essa grandiosa contribuição, Youyou Tu foi laureada com o Prêmio Nobel de Medicina em 2015 [2], após receber o prêmio de comenda médica pela Lasker Foundation em 2011 [3].

Nos últimos anos, algumas notícias sugeriram que uma variedade de produtos caseiros, como chás, feitos de material vegetal da artemisia poderiam ser eficazes na prevenção ou tratamento da malária. Não há base de evidências científicas para apoiar o uso de formas não farmacêuticas de artemisia para a prevenção ou tratamento da malária, conforme revisado pela OMS em 2019 [4]. Além disso, a concentração de artemisinina em infusões é cerca de 50 mg/L; sendo assim, 10 L deveria ser ingerido para absorver a dose terapêutica antimalarial, o que não é viável [5].

Atualmente, há relatos de que produtos caseiros feitos de material vegetal de artemisia também podem ter um efeito preventivo ou curativo na COVID-19. Circula nas redes sociais que o chá de artemisia é capaz de curar a COVID-19. Também não há evidências que sugiram que COVID-19 pode ser evitada ou tratada com produtos feitos de material vegetal à base de artemisia. Em abril de 2020, foi lançado um tônico herbal derivado de extratos de A. annua pelo Instituto de Pesquisa Aplicada de Madagascar e marca “COVID-Organics”. COVID-Organics foi promovido como uma cura para COVID-19 [5]. No entanto, faltam dados farmacológicos e de eficácia confiáveis, e existe a preocupação de que seu uso disseminado para COVID-19 possa resultar em acesso reduzido a medicamentos eficazes, tanto quanto possível seleção de resistência de Plasmodium falciparum as terapias combinadas à base de artemisinina, devido a exposição dos pacientes a concentrações sub-ótimas de artemisinina, especialmente em um momento onde casos de malária podem ser diagnosticados erroneamente como COVID-19 [5,6]. Portanto, para evitar a promoção de tratamentos neste clima de incerteza e medo, é importante que a pesquisa em plantas medicinais tradicionais e seus derivados seja conduzida adequadamente.

No entanto, após o alerta importante sobre o uso indevido do chá, vale a pena abordar que a Artemisia annua tem sido foco de estudos visando novos fármacos para o tratamento da COVID-19. No processo de pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para o tratamento da COVID-19, o reposicionamento de fármacos como o artesunato, derivado da artemisinina, oferece uma abordagem potencial de economia de tempo e custo. Dados na literatura mostram o potencial anti-inflamatório da artemisinina e derivados, especialmente sua capacidade de reduzir mediadores pró-inflamatórios, como TNF-α e IL-6, principais mediadores envolvidos na síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), relacionada ao agravamento das condições dos pacientes com COVID-19 [7]. Além disso, extratos de Artemisia annua inibiram significativamente a citopatia causada por SARS-CoV e mostrou atividade contra SARS-CoV-2 em triagem de efeito citopático baseado em células Vero-E6 [5].

No início do ano de 2020 foi conduzido na China estudo clínico com artesunato para o tratamento da COVID-19, com a participação de 43 pacientes confirmados com COVID-19. Os autores observaram redução: (1) nos sintomas gerais da doença, (2) no agravamento da patologia inflamatória pulmonar e (3) no tempo de hospitalização dos pacientes (dados completos publicados em chinês) [8]. Recentemente, pesquisadores da Arábia Saudita registraram um ensaio controlado por placebo (ClinicalTrials.gov NCT04387240) para avaliar a eficácia do artesunato em adultos com sintomas leves de COVID-19 [9]. Sendo assim, as etapas clínicas da pesquisa envolvendo artesunato ainda estão em andamento, e ainda não fornecem dados suficientes para registro do mesmo para o tratamento da COVID-19.


Referências:

[1] Youyou Tu (2017). From Artemisia Annua L. to Artemisinins: The Discovery and Development of Artemisinins and Antimalarial Agents. Academic Press – First Edition (https://doi.org/10.1016/B978-0-12-811655-5.00032-5).

[2] The Nobel Prize (acessado em 21/08/2020). https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2015/tu/facts/

[3] The Lasker Foundation (acessado em 21/08/2020). http://www.laskerfoundation.org/awards/show/artemisinin-therapy-for-malaria/

[4] Organização Mundial da Saúde (acessado em 21/08/2020). https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/question-and-answers-hub/q-a-detail/malaria-and-the-covid-19-pandemic

[5] Kapepula PM, Kabengele JK, Kingombe M, et al. Artemisia Spp. Derivatives for COVID-19 Treatment: Anecdotal Use, Political Hype, Treatment Potential, Challenges, and Road Map to Randomized Clinical Trials [published online ahead of print, 2020 Jul 23]. Am J Trop Med Hyg. 2020;10.4269/ajtmh.20-0820. doi:10.4269/ajtmh.20-0820

[6] Organização Mundial da Saúde (acessado em 21/08/2020). https://www.who.int/publications/i/item/the-use-of-non-pharmaceutical-forms-of-artemisia

[7] Cheong DHJ, Tan DWS, Wong FWS, Tran T. Anti-malarial drug, artemisinin and its derivatives for the treatment of respiratory diseases. Pharmacol Res. 2020;158:104901. doi:10.1016/j.phrs.2020.104901

[8] Lin Y, Wu F, Xie Z, et al. Zhonghua Wei Zhong Bing Ji Jiu Yi Xue. 2020;32(4):417-420. doi:10.3760/cma.j.cn121430-20200312-00412

[9] Clinical Trials (acessado em 21/08/2020). https://clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT04387240?term=artesunate&cond=covid-19&draw=2&rank=1

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