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Ácido acetilsalicílico: um dos medicamentos mais usados em todo o mundo

Na busca por uma solução que pudesse atenuar a dor do pai que sofria com reumatismo crônico, o químico Félix Hoffman, em 1897, conseguiu produzir de forma pura e estável o ácido acetilsalicílico (AAS). Na época, a única alternativa para solucionar dores e febres era o ópio, que apresentava muitos efeitos adversos e alto potencial para dependência. O ácido acetilsalicílico tem origem no ácido salicílico que é extraído das folhas de salgueiro, as quais eram usadas como analgésico desde o tempo de Hipócrates, conhecido como pai da medicina (1).

Após Hoffman conseguir sintetizá-lo, o AAS começou a ser produzido e comercializado pela Bayer com o nome comercial de aspirina em 1899, chegando ao Brasil em 1901 (2). Após muitos estudos, hoje é esclarecido que o AAS tem outras atividades importantes além da analgésica, como por exemplo, anti-inflamatória e antiplaquetária (1).

As propriedades apresentadas pelo AAS são consequência da inibição da biossíntese de prostaglandinas. As prostaglandinas são substâncias produzidas no nosso organismo que, além de apresentarem funções fisiológicas, estão envolvidas nos processos inflamatórios e de dor. A ação antiplaquetária do AAS se deve à inibição da produção de um importante agente agregante plaquetário produzido nas plaquetas (3).

No Brasil, o AAS é classificado como um medicamento de venda livre, estando disponível isoladamente ou em combinação com outros fármacos. É importante ressaltar que as doses indicadas para os efeitos analgésico, anti-inflamatório e antitérmico (doses orais de 0,3 a 1,0 g, sendo a dose máxima diária de 4 g) são maiores do que aquelas indicadas para o efeito antiplaquetário (doses diárias de 75 a 300 mg). Apesar de ser um medicamento de venda livre, o seu uso de forma inadequada pode gerar efeitos adversos, como distúrbios gastrintestinais, e interações medicamentosas importantes (1,4).

Com o avanço do conhecimento sobre a COVID-19, hoje se sabe que muitos pacientes evoluem para um quadro de alteração da coagulação sanguínea e risco aumentado de tromboembolismo venoso. Como o AAS é um antiplaquetário eficaz e conhecido, um estudo clínico de metanálise buscou investigar o uso do AAS para redução da mortalidade em pacientes com a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo e mostrou que poderia haver uma menor probabilidade de morte em pacientes com COVID-19 que fizeram uso do AAS. No entanto, as evidências não foram suficientes para fazer se ter uma conclusão definitiva (5).

A Universidade de Oxford conduziu um estudo clínico com mais de 15 mil pacientes hospitalizados com COVID-19 avaliando os efeitos do AAS na coagulação sanguínea. Foi estabelecido que o AAS não melhora a sobrevida desses pacientes e não deve ser usado de forma generalizada. O estudo mostrou que a cada 1000 pacientes tratados, aproximadamente 6 ou mais podem experimentar o desenvolvimento de um evento de hemorragia, enquanto que aproximadamente 6 ou menos experimentariam um evento tromboembólico. Embora associada a um pequeno aumento na probabilidade de receber alta, não é o suficiente para justificar seu uso como trombofilaxia padrão ou anticoagulação terapêutica em pacientes infectados (6,7).

No ClinicalTrials.gov, até o presente momento, existem 14 estudos clínicos que avaliam o efeito do AAS como antiagregante plaquetário na COVID-19 ainda em andamento (8).


GLOSSÁRIO

AGREGANTE PLAQUETÁRIO - Substância capaz de estimular a ativação de outras plaquetas aumentando a agregação plaquetária.

ESTUDO CLÍNICO DE METANÁLISE – Estudo estatístico utilizado para integrar resultados de dois ou mais resultados de estudos independentes sobre o mesmo tema de pesquisa combinando os resultados dos estudos.




REFERÊNCIAS

1. Montinari, M. R. et al. “The first 3500 years of aspirin history from its roots - A concise summary.” Vascular pharmacology vol. 113 (2019): 1-8. doi:10.1016/j.vph.2018.10.008

2. https://www.aspirina.com.br/pt/sobre-aspirina/como-funciona/#hiw_0 Acesso em 01.07.2021

3. Gabriel, S. A. et al. “Resistência à aspirina e aterotrombose”. Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, vol. 22, março de 2007, p. 96–103. doi: 10.1590/S0102-76382007000100017.

4. ASPIRINA: Comprimidos. Responsável técnico Dra. Dirce Eiko Mimura - CRF – SP n° 16532 . Alemanha: Bayer, 2021.

5. Srivastava, R. e Kumar, A. Use of aspirin in reduction of mortality of COVID-19 patients: A metanalysis. Int J Clin Pract. 2021; 00:e14515. https://doi.org/10.1111/ijcp.14515

6. Group, RECOVERY Collaborative, et al. “Aspirin in Patients Admitted to Hospital with COVID-19 (RECOVERY): A Randomised, Controlled, Open-Label, Platform Trial”. MedRxiv, junho de 2021, p. 2021.06.08.21258132. www.medrxiv.org, doi:10.1101/2021.06.08.21258132

7. https://www.ox.ac.uk/news/2021-06-08-recovery-trial-finds-aspirin-does-not-improve-survival-patients-hospitalised-covid Acesso em 26.07.2021

8. https://clinicaltrials.gov/ct2/results?term=%C3%81cido+acetilsalic%C3%ADlico&cond=Covid19&recrs=b&recrs=a&recrs=f&recrs=d&age_v=&gndr=&type=&rslt=&Search=Aplicar+ Acesso em 21.07.2021

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